Armazenamento e segurança dos dados de saúde na cloud

Armazenamento e segurança dos dados de saúde na cloud
18 . Março . 2014
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O ecossistema de saúde é vasto, diversificado e altamente complexo, lidando com uma grande e variável quantidade de dados que levam a desafios a nível de armazenamento e segurança. A computação em nuvem (do inglês “cloud computing” - CC) tem surgido como resposta a este desafio, permitindo aceder a dados em qualquer lugar e independente da plataforma. Apresentando ganhos computacionais, principalmente em escalabilidade instantânea (elasticidade) e agilidade.

A computação em nuvem permite que médicos, pacientes e até mesmo hospitais, partilhem dados e informações de referência cruzada de diferentes doenças e tratamentos a qualquer hora e em qualquer lugar, desde que haja uma ligação à internet. Oferecendo, assim, oportunidades para melhorar os serviços de saúde na perspetiva de gestão, tecnologia, segurança e legalidade. Exemplos conhecidos na área da saúde são o Microsoft Health Vault, Dossia, World Medical Card e a plataforma Google Health (cancelada em 2011).

Atualmente, os serviços mais comuns de cloud computing podem ser divididos em 3 modelos diferentes, de acordo com os serviços que oferecem:

  1. Infraestrutura como um serviço (IaaS): esta camada fornece redes, recursos de computação;
  2. Plataforma como um serviço (PaaS): permite hospedar e implementar hardware e software para o uso em aplicações;
  3. Software (Aplicação) como um serviço (SaaS): fornece software, não necessitando de adquirir licenças (mas o utilizador paga como “serviço”).
Tipos de cloud computingFonte da imagem: Wikipedia

Os modelos estruturais de cloud computing referem-se aos modelos de fornecimento da mesma para os utilizadores, podendo ser público, privado, ou híbrido.

  1. Em clouds públicas, as aplicações, armazenamento, e outros recursos em geral são disponibilizados para o público em geral. Independentemente do serviço ser pago ou gratuito, são semelhantes para todos os utilizadores, sendo que cada um possui uma instância desse serviço.
  2. Clouds privadas são desenvolvidas exclusivamente para uma organização, tendo como principal característica a individualidade do uso. A cloud privada é, dos três tipos, a mais cara, pois exige técnicos e hardware especializados, geralmente por de trás de firewalls corporativos, e pode ser adquirida e gerida pela própria organização ou por terceiros.
  3. O modelo híbrido é um mix das clouds públicas e privadas. Este tipo de cloud oferece ao cliente um maior controlo e segurança facilitando, também, a redução do serviço de acordo com a procura.

No entanto, todos os modelos apresentam vantagens e desvantagens – apresentamos abaixo um resumo dos vários modelos.

Modelo

Propriedade

Gestão

Custo

Segurança

Pública

Terceiros

Terceiros

Baixo

Baixa

Privada

Organização ou terceiros

Organização ou terceiros

Alto

Alta

Híbrida

Organização ou terceiros

Organização ou terceiros

Médio

Média

Ameaças

A Cloud Security Alliance publicou, em 2010, as principais ameaças associadas à cloud: abuso ou uso nefasto da cloud; interfaces inseguras de programação; insiders maliciosos; vulnerabilidades das tecnologias partilhadas; perda de dados; roubo de conta; risco de perfil desconhecido de segurança.

Abuso ou uso nefasto da cloud é quando hackers se aproveitam de quesitos, como testes grátis, para entrar e utilizar a tecnologia para atividades criminosas, utilizando para isso recursos da cloud. Uma má programação da interface pode expor utilizadores a riscos, podendo levar ao roubo de dados. Os insiders maliciosos geralmente aproveitam-se de falhas nos níveis de autorização de acesso para aceder a informações. A vulnerabilidade das tecnologias está associada à programação partilhada na cloud. A Perda de dados relaciona-se com o risco de haver uma eliminação de dados acidentalmente, ou a existência de algum problema nos servidores físicos e não haver backup dos dados dos utilizadores. O Roubo da conta caracteriza-se por um hacker/invasor apoderar-se ilicitamente de algum acesso do servidor na cloud. O chamado perfil desconhecido de segurança caracteriza-se pela perda ou migração incorreta de algum procedimento de segurança vital do cliente, no momento de migração dos serviços/dados para a cloud.    

Segurança e privacidade da cloud

As informações e dados de saúde são confidenciais e podem vir a ter um grande impacto na vida nas pessoas. Por isso mesmo, algumas questões sobre o uso de marcadores genéticos em decisões de contratação têm vindo a ser levantadas.

Assim, de modo a evitar ameaças, os prestadores de serviços de cloud devem possuir políticas, princípios (Cloud Governance) e mecanismos de segurança e privacidade. Para isso, os sistemas de cloud computing devem seguir a norma ISO 7498-2, certificação PCI DSS Level1, SAS70 Type II, ISO 27001, sendo, também, um dos protocolos mais importantes para assegurar a transparência dentro da cloud – o SLA (service-level agreement). O uso de HTTPS em conjunto com WS-security deve ser o mínimo dos mínimos quando os dados são acedidos usando cloud

Devem ainda considerar mecanismos para manter a segurança dos dados como: identificação e autenticação; autorização; confidencialidade; integridade.

Cada profissional, seja médico, enfermeiro, ou prestador de serviços de cloud, deve possuir um código de identificação ou o número para aceder às informações armazenadas na cloud para que seja garantida a privacidade dos dados do paciente.  

A autorização é conseguida usando roles, sobre fluxos de processos dentro da cloud, para definir privilégios, sendo importante para garantir a integridade. A confidencialidade assegura um controlo sobre as informações das organizações distribuídas por vários bancos de dados.

Integridade refere-se à precisão e consistência dos dados armazenados. ACID (atomicidade, consistência, isolamento e durabilidade) são propriedades da cloud que devem ser impostas. Esta característica é conseguida com a assinatura digital. Não repúdio é obtido através de protocolos de segurança e uso de tokens, chave ou cartão para transmissão de dados dentro de aplicações na cloud, tais como assinaturas digitais, marcas de tempo (timestamp) e serviços de receção de confirmação.

Disponibilidade relaciona-se com as garantias que o servidor pode dar ao cliente de que o sistema funcionará quando necessário, sem falhas, ou problemas de acesso e com os recursos requisitados pelo cliente. No entanto, é preciso considerar que podem ocorrer problemas externos, a nível, por exemplo, do acesso à internet, que pode ser imprevisível.

Abaixo é apresentada a intersecção da implementação de serviços e modelos de nuvem em relação aos 6 requisitos de segurança, onde uma marca de verificação (√) significa um requisito obrigatório no modelo de serviço específico e no modelo de implementação subjacente, enquanto um asterisco (*) significa opcional.

 

Requisitos de segurança

Modelos de implementação de Cloud

Pública

Privada

Híbrida

Identificação e autenticação

*

*

*

*

Autorização

*

*

*

*

Confidencialidade

*

*

*

Integridade

*

*

*

*

*

Não repúdio

*

*

*

*

*

*

Disponibilidade

*

*

*

*

*

 

IaaS

PaaS

SaaS

IaaS

PaaS

SaaS

IaaS

PaaS

SaaS

Serviço modelo Cloud

 

Benefícios e desafios

Um questionário elaborado pela International Data Corporation (IDC), durante o terceiro trimestre de 2009, identificou como principais benefícios do uso da cloud: pagamento de apenas aquilo que é usado, rápida/fácil implementação para os utilizadores finais, incentivo ao uso de sistemas standard, partilha simples de sistemas com parceiros. A nível de desafios, segurança, disponibilidade e performance foram as maiores preocupações apresentadas.

Questões não mencionadas no questionário, mas de vital importância, são as regulamentações legais e de auditoria associadas à cloud, como localização física dos dados, e uma geração transparente dos dados perante o cliente e as leis. Cada país possui uma legislação sobre os dados e procedimentos realizados, por exemplo, as regras da União Europeia são substancialmente mais restritivas em relação a outros países (particularmente os Estados Unidos). Na Europa, a Directiva 95/46/CE leva à proteção de pessoas singulares no que diz respeito ao tratamento de dados pessoais e à livre circulação desses dados.

Por Rita Vilaça

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